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A caixa de Pandora (Parte II)

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Pandora trazia dentro de si uma angústia incontrolável e remoia,  dia após dia, aquele antagonismo que assombrava seu ser.

– Como poderia ser tão perfeito e, concomitantemente, trazer dentro de si um nome como aquele?

Sobretudo, era Pandora o antagonismo em forma humana. Carregava em sua essência a dualidade, a dicotomia – ela sentia a  coexistência do bem e do mal dentro de sua alma, brigando por seu coração.

Era tão linda, tinha a pele alva, levemente rosada nas bochechas e livre de cravos – contrariando o súbito ímpeto dos hormônios, próprios de sua idade. Seu sorriso perfeitamente branco emoldurado por sua boca carnuda muito bem moldada pela natureza.  Seu nariz era como um adorno em seu rosto, pequeno e arrebitado. Os olhos eram cor-de-me, tinham um formato levemente puxados, os cílios eram longos e as sobrancelhas davam vida àquele olhar macio e profundo. Seus cabelos eram longos, muito escuros e brilhantes, seu pai a chamava “Vento no Cabelo”. Pandora era o charme compilado. Tinha em si um carisma irrefutável e impossível de se resistir.

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A caixa de Pandora (Parte I)

Ela amava o infinito. Do infinito era parte e o infinito se fazia nela. Não era aquele infinito ao qual damos proporção, era um infinito incalculável, insólido, impossível de se medir ou mesmo de se ver. E, por isso torna-se incompreendido. E ela, incompreendida pois portava dentro de si algo impassível à compreensão humana.

A garota, no entanto, tinha ânsia de ser perfeita e assim se fazia imperfeita, por acreditar que nada existiria além de sua perfeição. Fora criada para isso e para isso deu-se. Se pronunciava com clareza, era adequadamente limpa e organizada. Era moça impecável, doce, amiga e, se não bastasse, proferia palavras que exaltavam qualquer um que estivesse até a dez metros de distância dela.

Sua família lhe conferia o título, e, nada havia de errado com ela. A não ser pelo seu nome. Pandora.

– Pandora? Escutava isso desde a infância.
– Sim, Pandora!

O nome lhe havia sido dado por sua avó, que ficara louca pouco antes de seu nascimento. Anastácia era seu nome. Anastácia – A louca, como era chamada. Mulher já idosa que usava unhas negras e saia as ruas bem maquiada. Seus cabelos eram impecavelmente tingidos de vermelho, tão intenso que sua cabeça parecia estar sangrando constantemente. A velha falava dos mortos e contava histórias assustadoras.

O nome, Pandora, veio de seu nascimento. A menina rosa trouxe, no momento em que nasceu a mensagem de morte para sua mãe e a mensagem da sua própria morte. Anastácia a amaldiçoou sem medo da aglomeração à sua volta que lhe testemunhava.

Com todo o escândalo dentro do hospital, não demorou muito até que o cônjuge da falecida tirasse o bebê da velha louca. O pai da garota estava estarrecido com o falecimento de sua namorada, ao menos sabia que ela estava grávida. Chorava muito, não disse nada, apenas pegou a menina e saiu andando lentamente até a porta giratória. Felipe, nunca iria esquecer aquele dia, as paredes verdes rigorosamente limpas e aquele cheiro enjoativo de desinfetaste impregnava suas narinas. Sua vontade era ir embora, sumir com sua filha, ir para qualquer ponto no universo onde a lembrança de sua amada não lhe atormentasse.

Quando estava quase conseguindo sair pela porta e deixar todo aquele choro para trás, Anastácia – A louca, ainda atormentada pela morte da filha lhe grita. – Felipe!
E, se jogando a seus pés lhe pede. – Chame-a Pandora, é meu último pedido.

Felipe temeu aquelas palavras até seu último fio de cabelo. Se tremeu todo e num ato súbito levantou a velha, olhou bem nos olhos dela e não disse nada, apenas fez com a cabeça que sim. Anastácia deu um sorriso sem mostrar os dentes, lhe marcou com as unhas e disse. Essa caixa é para ela, fui eu mesma que fiz. Dê a ela quando for hora. Você saberá quando for a hora.

A velha deu uma gargalhada e seu corpo desintegrou no ar, como se tivesse sido transformado em pó. Era um pó negro que tirava das narinas de Felipe aquele cheiro insuportável de hospital, e criava um clima hostil naquele ambiente incomparavelmente limpo. Há aqueles que duvidam dessa história, mas, o que se sabe, é que os cabelos de Pandora eram louros em sua ficha de hospital, e, em sua certidão de nascimento, dois dias após o fato, eram negros.

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Crítica em construção: O contra luz de Verônica

Muito se diz a respeito do cinema brasileiro. Dizem a respeito das temáticas, dos cenários, e claro, dos atores. As temáticas são sempre as mesmas, os cenários são sempre as favelas do Rio de Janeiro ou a pobreza do sertão, e os atores são sempre os globais. Mas, como em cinema nada se cria, tudo se copia e todas as histórias se repetem, mudando apenas a forma com que são escritas. Há sempre formas de inovar dentro dessa arte que se aproxima muito do que diz Luis Humberto sobre a fotografia: “a poética do banal”.

Verônica é um exemplo. Um filme genericamente brasileiro, com caractéristicas da linguágem do cinema brasileiro contada a partir de uma ótima peculiar e uma narrativa praticamente transversal. Apesar de a abordagem do filme uma das mais utilizadas nos últimos 20 anos do cinema nacional, o problema social do Rio de Janeiro, o longa inova no que diz respeito ao uso da linguágem audiovisual. A começar pela escolha da fotografia e da direção de arte, tudo é fantásticamente colocado, um verdadeiro Noir legitimamente brasileiro. A escolha da iluminação e das cores é um dos pontos forte do filme, na verdade, o que acontece é uma linearidade da narrativa a partir delas. Maurício Farias abusa do contra-luz, das cores lavadas e saturadas para destacar os sentimentos das personagens.As imagens um pouco granuladas e a direção de arte acerca das favelas do rio deram à narrativa um clima adequado e pouco agressivo.


Os enquadramentos, metodicamente colocados, com objetos sempre colocados  no centro, dividindo as personagens, e demonstrando uma visão do diretor cheia de significados. De um lado Verônica, adulta, professora, separada, moradora do suburbio carioca. Do outro lado Leando, uma criança problemática, que vive em certo conforto em um aglomerado urbano até ter sua família morta e ser jurado de morte. A escolha de enquadramentos parece levar a câmera a ser mais uma personagem na narrativa, como um observador bem próximo. Praticamente dando olhos intimistas ao espectador.

Recheado de cortes cecos e bem ritimados e uma trilha sonora que combina muito bem a adequação ao tema e o risco, a batida rápda e muito alta ora tira ora coloca, ora tira de Verônica seu caráter dramático. dO fato é que
Verônica têm, já em sua primeira cena, um  realismo muito parecido com o utilizado por Fernando Meireles em sua linguágem. Um diálogo simples e direto, que nem aparenta pertencer a um roteiro cinematográfico, abre para o espectador o universo bucólico de Verônica. Nesta cena percebe-se, então, que as três personagens iniciais são apenas fatores detonadores do caos a ser instaurado.

Luana Borges