A caixa de Pandora (Parte I)

Ela amava o infinito. Do infinito era parte e o infinito se fazia nela. Não era aquele infinito ao qual damos proporção, era um infinito incalculável, insólido, impossível de se medir ou mesmo de se ver. E, por isso torna-se incompreendido. E ela, incompreendida pois portava dentro de si algo impassível à compreensão humana.

A garota, no entanto, tinha ânsia de ser perfeita e assim se fazia imperfeita, por acreditar que nada existiria além de sua perfeição. Fora criada para isso e para isso deu-se. Se pronunciava com clareza, era adequadamente limpa e organizada. Era moça impecável, doce, amiga e, se não bastasse, proferia palavras que exaltavam qualquer um que estivesse até a dez metros de distância dela.

Sua família lhe conferia o título, e, nada havia de errado com ela. A não ser pelo seu nome. Pandora.

– Pandora? Escutava isso desde a infância.
– Sim, Pandora!

O nome lhe havia sido dado por sua avó, que ficara louca pouco antes de seu nascimento. Anastácia era seu nome. Anastácia – A louca, como era chamada. Mulher já idosa que usava unhas negras e saia as ruas bem maquiada. Seus cabelos eram impecavelmente tingidos de vermelho, tão intenso que sua cabeça parecia estar sangrando constantemente. A velha falava dos mortos e contava histórias assustadoras.

O nome, Pandora, veio de seu nascimento. A menina rosa trouxe, no momento em que nasceu a mensagem de morte para sua mãe e a mensagem da sua própria morte. Anastácia a amaldiçoou sem medo da aglomeração à sua volta que lhe testemunhava.

Com todo o escândalo dentro do hospital, não demorou muito até que o cônjuge da falecida tirasse o bebê da velha louca. O pai da garota estava estarrecido com o falecimento de sua namorada, ao menos sabia que ela estava grávida. Chorava muito, não disse nada, apenas pegou a menina e saiu andando lentamente até a porta giratória. Felipe, nunca iria esquecer aquele dia, as paredes verdes rigorosamente limpas e aquele cheiro enjoativo de desinfetaste impregnava suas narinas. Sua vontade era ir embora, sumir com sua filha, ir para qualquer ponto no universo onde a lembrança de sua amada não lhe atormentasse.

Quando estava quase conseguindo sair pela porta e deixar todo aquele choro para trás, Anastácia – A louca, ainda atormentada pela morte da filha lhe grita. – Felipe!
E, se jogando a seus pés lhe pede. – Chame-a Pandora, é meu último pedido.

Felipe temeu aquelas palavras até seu último fio de cabelo. Se tremeu todo e num ato súbito levantou a velha, olhou bem nos olhos dela e não disse nada, apenas fez com a cabeça que sim. Anastácia deu um sorriso sem mostrar os dentes, lhe marcou com as unhas e disse. Essa caixa é para ela, fui eu mesma que fiz. Dê a ela quando for hora. Você saberá quando for a hora.

A velha deu uma gargalhada e seu corpo desintegrou no ar, como se tivesse sido transformado em pó. Era um pó negro que tirava das narinas de Felipe aquele cheiro insuportável de hospital, e criava um clima hostil naquele ambiente incomparavelmente limpo. Há aqueles que duvidam dessa história, mas, o que se sabe, é que os cabelos de Pandora eram louros em sua ficha de hospital, e, em sua certidão de nascimento, dois dias após o fato, eram negros.

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