Para meu anjinho que está no céu

“Amor, acho que a Pitchula morreu”. Foi com essa frase que acordei a exatamente oito dias atrás. No começo eu não quis acreditar, fiquei na cama rolando de um lado pro outro, tentando imaginar como seria minha vida depois que eu levantasse. Tentando imaginar o que eu iria fazer sem uma companheira que estava na família a mais de treze anos. Sem a gorda que deitava no meu pé  enquanto eu estudava; que chorava na porta do meu quarto todos os dias pela manhã, para que eu acordasse; que, nas minhas épocas de profunda tristeza, dormia comigo praticamente o dia inteiro, pelo simples prazer de estar comigo. Realmente eu não sabia o que fazer.

Afundei minha cabeça no travesseiro e tentei parar de respirar para ver se eu morria também; tentei ficar forte e não chorar para ver se eu conseguia não sentir dor; tentei, de todas as maneiras fazer com que aquilo não fosse uma verdade absoluta e consumada. Mas era e eu teria que encarar aquilo uma hora ou outra. Tinha morrido quem nunca fizera mal. Um dos únicos seres que me amou genuinamente, apenas por ser eu.

Depois de mais ou menos uma hora nessa peleja, levantei-me. Fui até a sala, minha mãe chorava muito e me disse “Lu, a Pitchula morreu!”  Nossa, acho que nunca vou consegui descrever como foi aquele momento.  Meu mundo caiu e eu não sabia o que fazer.  Fui até perto da escada, lugar onde ela costumava ficar, sentei e chorei compulsoriamente durante horas.  Não me lembro muito bem, mas sei que minha irmã chegou, depois o meu irmão, depois veio o moço da veterinária levar o corpinho dela para sempre. E  então minhas idéias se perderam naquele dia, não me lembro muito bem e parei de me esforçar para lembrar.

Pitchula morreu num domingo de manhã, como todos da família Borges, e choveu no “velório” assim como é tradicional na família. Eu particularmente acho domingo um bom dia para se morrer. Pois, veja pelo lado positivo, se você morre num domingo você não vai morrer sozinho.

Tchu, eu sei que você nunca mais vai me fazer perder trabalhos desligando o computador com a bunda; sei também que você não vai mais me acordar todos os dias nem vai mais ser a sinfonia do nosso almoço e também não vai mais incomodar todo mundo com seus latidos.  Te amei até o último minuto e quando você se foi parece que arrancaram um pedaço de mim.

Pois é, eu ainda não sei lhe dar com perdas.

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