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Avenidavida

Meu amor,
eu disse!
– O tempo é um rolo.
E um rolo compressor.

Come a nossa existência,
consome nossas vontades,
queremos algo
(…) esperamos (…)
e a vontade passa.

O rolo do tempo
comprime nossos sentimentos,
constrange nossos filhos,
TORTOS.

E, quando se vê,
o rolo já rolou,
tirou os buraquinhos
e já se pode mandar ver
no asfalto.

Daí,
supimpa:
a avenidavida
já está propícia para o uso.

Linda e limpa,
e ainda com pista dupla.
Sem buracos,
o que é muitíssimo importante.

O que ficou pra trás,
no rolo compressor
é uma história
lamentável do que não se fez,
do que não se quis.
Do que não aconteceu.

Ninguém pode falar que abriu mão da vida para construir uma história,
pois a vida é a própria história.

Então,
viva sem se preocupar, sem se perguntar.
Não há nenhuma resposta tão fundamental que mereça ser procurada, assim, a qualquer custo.

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Clarice

Quem me conhece (mas realmente conhece), sabe o quanto eu sou apaixonada por Clarice Lispector. Essa paixão é advinda da consideração que apenas a poesia dela é capaz de me representar. E a partir da ideia dela de tentar transponir o coração para a escrita, comecei a fazer textos os quais, hoje, realmente me orgulho. Obrigada, Clarice, por me ensinar a escrever com o coração.

Hoje, não raro, estou com uma dor de cotovelo infinda, mas, ao contrário de sempre, não consigo escrever algo que vem de dentro. Então resolvi transpor algo que vem de fora, que vem de Clarice – a poesia em forma de gente.

“Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue;outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho…o de mais nada fazer”.

Ps: esperando autorização do Pedro Hemb para colocar uma ilustração. =D

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Haifish

Esse poema faz parte da coleção “Abandono”. Resolvi postá-lo hoje, pois, estou pensando bastante no quanto faço tudo errado em relação a relacionamentos.
Essa história é bem legal.
Quando eu tinha 15 anos conheci um garoto, eu o gostava mas não conseguia demonstrar isso (sempre fui extremamente estabanada).
Depois de 5 anos nos reencontramos e escrevi esse poema para ele. Acho que é de janeiro/2006.

Ícaro e o Tubarão Branco

Ícaro livre
Liberto
Do Labirinto

De seu pai
Se separa

Ícaro alado
Com suas asas
Sobrevoa
As águas gregorianas

Nem tão baixo
Como aquele
Aconselhara

Busca algo
Além do sol do horizonte

Por um instante
Esquece
Seus anseios

Não é como Narciso
Não ama a si mesmo
Outrora necessita
Que alguém isto o faça

Rodeia os mares
Rodeia a terra

Enfim observa
No fundo do oceano
Um certo alguém
Aquele que tanto almeja

Um tubarão branco

Todos os dias
Volta às mesmas redondezas
Para seu amado visar

O ser tão desejado
Percebe os olhares
Sobe à superfície
Afim de saber
Quem o fita

Olhos nos olhos
Presos
Não conseguiam soltar
Seus semblantes

Mas da boca
Não saia nenhuma palavra
Os dois que se amavam
Não conseguiam
Nada se dizer
Falar dos sentimentos

Logo se afastaram

Mas o coração de Ícaro
Não conseguiu a outro amar

Separados

Muito tempo

O reencontro

Mas o Tubarão Branco
Apesar de Ícaro não ter esquecido
Procurou outro alguém
Pra preencher seus vazios

Ícaro magoado
Resolveu cumprir sua fortuna
À fonte de energia chegar
Ao sol desejou partir

Tomou impulso
Com sua força cabal
Toda sua concentração usou

Voou rumo ao sol
Rumo ao seu destino estrábico

Suas asas pelo calor derreteram
No oceano caiu

Desejou subitamente respirar
À superfície queria subir

O Tubarão Branco o viu
E o queria ajudar

Em vão

Afogado

Padeceu Ícaro
Nos braços de seu amado

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A vida secreta de Joyce P. Thomas

Pena que as coisas legais só aconteçam nos livros, não é mesmo?
Meu nome é Joyce P. Thomas e, hoje, eu beijo o fogo que é para ele não me queimar.

Você deve estar se perguntando sobre meu nome. Pois é, eu também me perguntei sobre ele a vida toda, mas, nunca me fez falta não saber da onde vim.
Sempre fui Joyce P. Thomas, a menina sem pai, a menina do cabelo duro, olhos duros e vida sem paz.
Quando eu era pequena, bom, na verdade pequena eu sou até hoje (…) Quando eu era criança (nossa, referência bem melhor) (…) minha mãe me dizia que eu era muito, muito estranha. Na verdade não era para eu ter levado a sério, minha mãe era uma alcoólica que nunca, nunca estava sóbria e se recusava a pedir ajuda. Ela era muito bonita e orgulhosa e no seu orgulho se matou aos pouquinhos. Mas é certo que eu acreditei nela. E quando você acredita em algo, mesmo que seja mentira, isso se torna uma verdade, e depois que se torna uma verdade, não tem como voltar atrás. Então, de fato, meu nome é Joyce P. Thomas e eu sou uma pessoa muito, muito estranha.
Eu não quero falar minha idade, e não me pergunte. É uma indelicadeza sem tamanho perguntar a idade de uma mulher.

Sou escritora, apesar de nunca ter conseguido terminar uma história sequer. Meu editor faz menção a esse estilo como ‘Literatura Inacabada’ (hahaha). Poucos autores conseguiram isso. Talvez João Ubaldo Ribeiro tenha conseguido em seu livro ‘A casa dos budas ditosos‘, apesar de que eu nunca descobri se quem escreveu aquele livro foi mesmo a senhora safada ou se foi meu adorado ubaldinho. Ah, não importa.
Sempre desisto das histórias, não sei porque, eu perco a paciência pra lá da metade. Estou escrevendo e de repente o ódio cresce no meu coração e atiro o bloco de papel longe (sim, eu ainda escrevo em blocos de papel apesar de ter que escrever de novo no computador posteriormente). Fico assim, com milhares de papeis jogados, a quitinete escura e o cheiro de álcool no ar, mas, uma vez por semana meu editor me visita. Ele desdobra todos os papeizinhos, lê todos os bloquinhos, separa o que presta e o que não presta e me obriga a digitar todos os escritos e organizar em pastas dentro do computador. E assim tem sido a minha vida a mais ou menos cinco anos. Eu gosto, apesar de ser um tanto quanto inconstante.

Não, eu nunca fui casada. Na verdade isso reflete apenas a minha desestrutura familiar. Sou uma daquelas muitas pessoas, filhas de mães solteiras e histéricas. Que fazem da vida da criança uma festa, mas, não conseguem ensinar a ela nenhum tipo de valor de família. Então, cresci jogada na rua, fazendo o que queria, indo onde me desse vontade. Todos os dias, chegava em casa tarde da noite e minha mãe lá, olhando a foto do meu pai (ele havia fugido com outra quando soube que minha mãe estava grávida) e chorando compulsivamente. E assim cresci, observando o amor doentio da minha mãe, sem nenhuma referência masculina e tornei-me isso que você está vendo agora, um bicho selvagem a procura de mais uma presa.

(…)

Acho melhor você ir embora, eu já falei demais hoje.

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Devaneios de um banco

Naquele banco
Onde nos conhecemos

E nossas mãos
Se conheceram

E nossos corpos
Se conheceram

E nossos olhos
Se olharam

E nossos gemidos
Nos calaram

E nossos corações
Se escutaram

Você negou
Aquele banco

Você negou
O que era lindo

Você negou
Meus sentimentos

Você negou
A minha vida

Naquele banco
Onde nada existia

Onde o tempo
Não existia

Onde o entorno
Não existia

E nem a realidade
Existia

Naquele banco
Estúpido

Onde um dia
Ousei sentar-me

Onde um dia
Falei

Onde um dia
Beijei

Onde um dia
Calei

E hoje
Acolhe meu pranto

E hoje
Vê meu espanto

E hoje
Vê minha angústia

E hoje
Vê as lembranças

Aquele banco
Que agora vazio

Ri da sua
Infância tardia

Ri da sua
Tolice tamanha

E chora
Aquele amor perdido

E cava-se
Aquele buraco louco

Que
Tamanho prazer sentido

Pra você
Não existia

Aquele banco
Esburacado

Chora
A dor da partida

E eu
Rio da sua mediocridade

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A fofoca

Era
Ela

Quem sorria
Quem sofria
Quem amava

Aquela cadela bêbada
De paixão se embriagava

Rolava sua cara no pó
Sobretudo estava só

Sozinha

Abandonada na sarjeta
Que se chamavam de rua

Se jogava pelos cantos
Daquelas paredes nuas

E via nelas desencanto
Na vida de suas putas

A abandonada
Foi quem abandonou

Endoidecida deixara os filhos
Anjinhos barrocos de Viena

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Novidades

Olá leitores!
A partir de hoje iniciarei uma releitura interna.
Quem me conhece (mas realmente conhece) sabe que entre os anos de 2003 e 2006 escrevi um livro. Ainda não editado nem publicado.
Eu tinha perdido o arquivo, mas, milagrosamente achei ele na minha caixa de email.
Iniciarei, então, uma série de Posts, com a coleção de poemas que compõe aquilo que não sei se posso chamar de obra. Chama-se Abandono e foi um eu poético que eu amei compor e descobrir a cada vez que eu pegava um papel e uma caneta para escrever e viajar em cima da personagem. É uma personagem tão intensa que, hoje é uma parte de mim, tanto, que várias outras surgiram a partir desta como Pandora e Carla. É uma “obra” densa e rica em sentimentos. Espero que vocês gostem.

Beijos dessa Mei(a)vulsa que vos escreve e boa leitura!

Para estrear, o poema que dá nome à “obra”: Abandono.