A vida secreta de Joyce P. Thomas

Pena que as coisas legais só aconteçam nos livros, não é mesmo?
Meu nome é Joyce P. Thomas e, hoje, eu beijo o fogo que é para ele não me queimar.

Você deve estar se perguntando sobre meu nome. Pois é, eu também me perguntei sobre ele a vida toda, mas, nunca me fez falta não saber da onde vim.
Sempre fui Joyce P. Thomas, a menina sem pai, a menina do cabelo duro, olhos duros e vida sem paz.
Quando eu era pequena, bom, na verdade pequena eu sou até hoje (…) Quando eu era criança (nossa, referência bem melhor) (…) minha mãe me dizia que eu era muito, muito estranha. Na verdade não era para eu ter levado a sério, minha mãe era uma alcoólica que nunca, nunca estava sóbria e se recusava a pedir ajuda. Ela era muito bonita e orgulhosa e no seu orgulho se matou aos pouquinhos. Mas é certo que eu acreditei nela. E quando você acredita em algo, mesmo que seja mentira, isso se torna uma verdade, e depois que se torna uma verdade, não tem como voltar atrás. Então, de fato, meu nome é Joyce P. Thomas e eu sou uma pessoa muito, muito estranha.
Eu não quero falar minha idade, e não me pergunte. É uma indelicadeza sem tamanho perguntar a idade de uma mulher.

Sou escritora, apesar de nunca ter conseguido terminar uma história sequer. Meu editor faz menção a esse estilo como ‘Literatura Inacabada’ (hahaha). Poucos autores conseguiram isso. Talvez João Ubaldo Ribeiro tenha conseguido em seu livro ‘A casa dos budas ditosos‘, apesar de que eu nunca descobri se quem escreveu aquele livro foi mesmo a senhora safada ou se foi meu adorado ubaldinho. Ah, não importa.
Sempre desisto das histórias, não sei porque, eu perco a paciência pra lá da metade. Estou escrevendo e de repente o ódio cresce no meu coração e atiro o bloco de papel longe (sim, eu ainda escrevo em blocos de papel apesar de ter que escrever de novo no computador posteriormente). Fico assim, com milhares de papeis jogados, a quitinete escura e o cheiro de álcool no ar, mas, uma vez por semana meu editor me visita. Ele desdobra todos os papeizinhos, lê todos os bloquinhos, separa o que presta e o que não presta e me obriga a digitar todos os escritos e organizar em pastas dentro do computador. E assim tem sido a minha vida a mais ou menos cinco anos. Eu gosto, apesar de ser um tanto quanto inconstante.

Não, eu nunca fui casada. Na verdade isso reflete apenas a minha desestrutura familiar. Sou uma daquelas muitas pessoas, filhas de mães solteiras e histéricas. Que fazem da vida da criança uma festa, mas, não conseguem ensinar a ela nenhum tipo de valor de família. Então, cresci jogada na rua, fazendo o que queria, indo onde me desse vontade. Todos os dias, chegava em casa tarde da noite e minha mãe lá, olhando a foto do meu pai (ele havia fugido com outra quando soube que minha mãe estava grávida) e chorando compulsivamente. E assim cresci, observando o amor doentio da minha mãe, sem nenhuma referência masculina e tornei-me isso que você está vendo agora, um bicho selvagem a procura de mais uma presa.

(…)

Acho melhor você ir embora, eu já falei demais hoje.

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3 thoughts on “A vida secreta de Joyce P. Thomas

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