A vida secreta de Joyce P. Thomas (final)

A solidão foi uma forma que encontrei de ser poeta. As pessoas são assim, más e antagônicas por natureza. Você sabe como é.
Não dá simplesmente para conviver de forma amigável. Eu tinha que ir embora.

Tenho necessidade de permanecer na inércia e a tecnologia favoreceu essa minha tendência em não gostar dos seres humanos, então compro o que preciso pela Internet e odeio minha família. Você sabe, as pessoas não gostam de mim e eu não gosto delas. As vezes vou ao médico, as vezes pago uma menina para me dar assistência em casa.

Então, essas paredes que você está vendo. Esse lugar que eu compartilho com você agora, não é apenas um refúgio, é a paisagem que eu tenho visto (praticamente) nos últimos cinco anos. E não foi uma escolha. É uma condição humana. Nascer em algum lugar, crescer vagando pelo mundo, sem saber de onde veio nem para onde vai. E você sabe, quando não se sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve, mas não importa mesmo, no final das contas se morre sozinho.

(…)

Tudo o que eu preciso está aqui. Eu preciso de livros para alimentar, de plantas para regar e vida para viver, ou não viver, depende do seu ponto de vista. Eu não preciso dessa pseudoliberdade que as pessoas geralmente buscam. Se a liberdade realmente existisse eu a buscaria de todo o meu coração. Mas sabe? tem gente que diz que quer ser livre e compra um apartamento em um condomínio fechado. Ora, o condomínio fechado não é a prisão da contemporaneidade? Eu sou livre porque faço o que eu quero mas não sou livre pois tenho minhas decisões condicionadas à sociedade.

Você pode me considerar amarga, mas a amargura é inerente a quem conhece a realidade. Afinal, a ignorância é uma bênção, e ignorante é o único tipo de gente que eu nunca fui e nunca serei. Então, o mundo é assim, injusto por natureza. E digo mundo, pois dizer “humanidade” seria injusto com as invenções que já são extensões do nosso próprio corpo. Jorge, você se lembra da fórmula da velocidade? Não era distância sobre tempo? Pois é, isso significa que a distância é proporcional à velocidade. Já entendeu o que eu disse ou precisarei desenhar?

(…)

Apenas fico na dúvida se algum ser humano, qualquer um que seja, sabe mesmo para onde está indo. E se o destino é incerto, morrer sozinho se torna uma condição. E se vou mesmo padecer ao isolamento mental porque tenho que querer companhia? Na verdade eu prefiro passar fome a dobrar meu cotovelo por alguém, entende? Nada é o que parece e as pessoas são volúveis demais.Trocam de ideia a cada minuto, exageram na falta de delicadeza e não sabem abstrair. Porque eu iria querer alguém ao meu lado ou um grupinho a minha volta?

Acho que já falei tudo que você pediu, esse foi o acordo, agora me ajude com a corda.

(…)

vamos

Leia aqui e aqui as partes 1 e 2 deste conto

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