O homem sem coração

Ela abriu os olhos assustada, pegou o celular, olhou, tinha dormido demais. Sentiu um corpo em seu corpo, olhou para o lado e lembrou das últimas horas. Aquele era o segundo em menos de duas semanas. Levantou da cama, caminhou até a porta. Olhou novamente. Um homem nu em cima da cama. A cena era uma (quase) rotina em seu quotidiano.
Ela poderia ir embora e abstrair tudo o que acontecera, sempre fazia isso. Mas aquele era diferente dos outros. Ela nunca mais veria aquele sujeito, ou pelo menos era essa a tendência. Resolveu, por hora, voltar e ficar . Caminhou até a cama, tirou a roupa e deitou ao seu lado. Fechou os olhos e lembrou-se de todos os detalhes daquele relacionamento louco.
(…)

(…)
Havia chegado ao recinto lá pelas 22h, tinha pego o ônibus errado e perdeu-se pelo caminho, mas estava lá e era isso que importava. Do lado de fora, bateu palmas, tocou a campainha e depois de dez minutos… nada. Verificou se o portão estava trancado, depois da negativa não pensou duas vezes e adentrou no local.
Um pouco de medo em seu coração. Seria uma estranha? Aquele era o local onde deveria estar? A resposta se restringia a uma pesada sensação em sua pele. (Nunca havia estado em um lugar tão estranho).
[Entre o portão que acabara de abrir e a satisfação de suas dúvidas havia um longo corredor envolto a um muro de chapisco e, ao final dele, uma longa escada]. Quando chegou ao topo dela, viu os primeiros seres humanos desde que saira do ônibus. Sorriu para um homem forte, musculoso e careca que foi logo lhe oferecendo uma bebida.
(…)
Depois dessas lembranças concretas haviam várias abstratas. O homem transformado. A dança com desconhecidos. A garrafa de vodka. A garrafa, vazia, de vodka . O homem magro e simpático. O sarro com o homem magro e simpático. O quarto escuro com o homem magro e simpático. [Lembrava de algo a mais. Poderia ser o cabelo um tanto quanto peculiar]. Uma só frase ecoava em seu cérebro. “Se você não quiser transar comigo, eu vou te estuprar”. E, de alguma forma, aquela frase causava um reboliço em suas ideias.
Os flashs continuavam dominando sua mente. Agora com cores que explodiam nos acontecimentos. Assim como uma boate que esconde o sexo, combinando luzes coloridas e a escuridão. Lembrava do banheiro com o homem magro e simpático do cabelo um tanto quanto peculiar. Lembrava do espelho, do box, do chuveiro. Lembrava do banho de quase quatro horas, lembrava do amor enlouquecido. Lembrava da cama, do lençol enojado, lembrava do chão coberto por latex e fluidos de ambos os corpos, lembrava das mais de 40 latinhas de cerveja.

( …)

Abriu os olhos, resolveu avaliar o estrago. Olhou para o lado. O moço magro, simpático do cabelo um tanto quanto peculiar, ainda estava na mesma posição em que tinha ficado depois da última foda. (Estava morto?) Deu uns beijinhos estalados nas suas bochechas, para ver se acordava aquele que parecia inacordável. O moço estava imóvel. Depois de vários carinhos, viu que ele esboçava alguma reação. Respirou fundo com um gemido de alívio. O homem com aquela aparência exausta e, ao mesmo tempo, contentada, proferia palavras vindas de seus delírios. “Foi bom demais, você acabou comigo”. Ela não aguentou, deu uma gargalhada, não se aguentava de satisfação, tinha levado à nocaute aquele homem, tão viril e insaciável. Começou a fazer carinho em seu rosto e disse numa frase que saiu sem nenhum tipo de filtro ou censura: “Você não precisa ir embora, poderia ficar. Eu transaria com você todos os dias”. Foi a vez dele gargalhar: “Moça, eu transaria com você toda hora, eu queria viver só para foder contigo”.

Ela ficou mais algum tempo olhando para ele. Encarando aquele homem magro e simpático do cabelo um tanto quanto peculiar. Depois falou: “Quero fazer uma foto mental de você. É o homem mais viril que já tive”. Houve um certo silêncio. Minutos depois o homem retrucou. “Eu sou assim, viril e frenético, pois sou um homem sem coração”. Ela lhe fez uma cara de espanto e antes que pudesse falar qualquer coisa ele continuou: “Minha mãe devorou meus irmãos no ninho e quando chegou a minha vez, ela olhou para mim, viu que havia pouco sinal de bondade e então, em um único golpe, comeu meu coração. A minha mãe comeu meu coração no ninho, você entende”?

Nada mais precisava ser dito. A moça desapareceu em uma única frase: “Eu nunca irei te esquecer”.

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