A vida ao avesso

Pode parecer fácil deixar tudo para trás, mas nunca é. Ir embora sem olhar para trás, Deus, como é difícil. Aliás, isso  se houver algum Deus lá em cima, nem ele saberá explicar como é doloroso ir embora assim de repente.

E assim era Bianca: aquele ser misterioso, sem raízes, sem história, sem memória. Um dia ela me contou. A família era do interior, uma cidadezinha de Minas Gerais onde havia apenas uma rua, uma igreja e um buteco (que de dia também servia de armazém). O lugarejo havia sido abandonado pelo homem e renegado por Deus. A “cidade” quase não recebia visitantes, não tinha calçada, asfalto ou postes de iluminação.

O último estrangeiro que passou pelo lugar foi o pai de Bianca, o moço era forte, bonito e viajava por longos dias em cima de sua bicicleta. Mas o homem veio e se foi da mesma maneira, sumindo na poeira da estrada de chão que a muito não recebia um beijo da chuva.  A jovem Angélica, grávida e sem nenhum amparo, teve sua chance quando a barriga ia fazer seis meses. A menina bolou um plano, colocou tudo que tinha em uma pequena mala e fugiu numa madrugada apenas com uma lanterna e uma garrafa d’ água. Embrenhou em meio à escuridão. Sentiu medo, sentiu frio, mas, ao amanhecer chegou à auto estrada. A moça se encontrou e foi a dedo até uma cidade próxima. Lugar onde se estabeleceu e pariu seu bebê, uma menina linda que teve o mesmo nome de uma das enfermeiras do hospital, Maria Alice.
Maria Alice era uma criança muito, muito branca, tão branca que ninguém acreditava que  era dali. As fofoqueiras tricotavam e muito se dizia a respeito da história daquela criança sem pai.  Fugiu de casa aos treze anos, partiu para a capital depois que sua mãe descobriu seu maior segredo. Mais tarde, teve que mudar de nome para não deixar rastros. Bianca trocou  sua história por um pingo de paz.

Ela não me contou nada ao certo, existem vários buracos na história dela. É um quebra-cabeças que ainda estou montando e, ontem, me veio mais uma peça. Eu estava indo de algum lugar para lugar nenhum. Veja, os lugares não são importes, pois, quando vi aquela cena perdi todo o norte, toda a direção e toda a razão. A deusa do sexo, aquela que ganhava rios de dinheiro dando prazer aos magnatas da cidade, estava ali, entre o motel e a rua, beijando uma outra garota atrás da grade.

Se você quer saber algo mais sobre Bianca ou sobre o narrador, leia o conto a baixo

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4 thoughts on “A vida ao avesso

  1. Gosto da forma como a Bianca é. Como ela não espera nada de ninguém. Achei que a história pudesse terminar um pouco mais feliz e menos desgastada pra ela. Isso acaba compensando um pouco todo mal que ela já passa todos os dias. Algo menos esperado para quem lê.

    • Oi Alyson, obrigada pelo comentário.
      Pois é, Bianca é uma personagem incrível que veio até mim da forma mais inesperada possível.
      Sei por onde guiar a personagem, pois, a espinha dorsal da narrativa já está traçada, mas, não sei como essa história irá terminar, pois, sempre surgem novos elementos. Adorei seu pitaco sobre o final e espero que você goste do resultado.

      Beijos, beijos.

  2. A Bianca é o modelo perfeito de pessoa que espera pouco da vida. Leva seus dias dentro da rotina, e se contenta com o que receber. É alguém com uma história incompleta, assim como a nossa história: muitas coisas na nossa vida ficam sem explicação e as vezes deixamos assim mesmo!

    Parabéns pelo texto. Ótimo como todos os outros!

    Gde beijo!

    • hihihi, é verdade, gosto de escrever sobre pessoas de verdade, que não tenham aquelas histórias fantasiosas do advindas do Parnasianismo.
      Eu sou uma ladra de vivências e emoções. Vejo o que as pessoas vêem, sinto o que elas sentem, vivo o que elas vivem e então escrevo sobre isso.
      Gosto de compor personagens que poderia ser qualquer um de nós.
      Obrigada pelo comentário e volte sempre.
      =D

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