Casa comigo, moça de meias vermelhas

Acordei já anoitinha. A cabeça, pesada (tão pesada que podia sentir o movimento da cidade inteira dentro dela. Quem sabe até mesmo ouvir o barulho de uma escola de samba com todas as suas alas, blocos e bateria pulsando dentro do meu cérebro).

Não tinha nenhuma noção do quanto havia dormido, nem era capaz de nada me lembrar. Exceto, claro, um nome: Bianca. E então, de repente, não mais que de repente meu telefone tocou.

– Alô.

– Carlos, onde você está?

– Em casa, eu acho. Mas quem está falando?

– Heim? Carlos, é a Bianca. Onde você esteve?

– Em casa, Bianca, eu estive em casa e ainda estou em casa. Entendeu?

– Como você pode estar em casa se estou te ligando há três dias?

– Eu estava dormindo, Bibi, pelo menos eu acho que estava dormindo. Não me lembro ao certo.

– Você dormiu durante TRÊS dias.

– Acho que sim Bibi, eu não sei. Que dia é hoje?

– Segunda, hoje é segunda-feira.

– …

– Você já viu a lua hoje?

– Bianca, provavelmente estou apagado a três dias. Eu ainda não consegui levantar da cama. Como posso ter visto a lua?

– Não precisa ser grosso. (…)

(…) É a nossa lua. Me encontre aqui em casa, nós vamos sair.

– Agora?

– Agora. É a nossa lua, diz que sim, vai?

– Tudo bem.

Bianca desligou o telefone sem pronunciar mais uma palavra. Nem precisava. Eu começava a recobrar a memória, lembrar do que me fez dormir todo esse tempo. Recordei-me da coisa mais óbvia. Era eu escravo do coração de Bianca, já não podia negar-lhe nada.

Tomei um banho demorado. Escolhi cuidadosamente as roupas com as quais iria vestir-me. Entrei no carro.

♫ Fei-se mar, senhora o meu penar. Demora não, demora não. Vai ver, o acaso entregou alguém pra lhe dizer o que qualquer dirá parece que o amor chegou aí, Parece que o amor chegou aí Eu não estava lá, mas eu vi… ♫

Assustei-me ao chegar em frente ao prédio onde ela morava. Um ser estranho abriu, de forma bruta, a porta do carro e tascou-me um beijo na bochecha.

– Bianca, você cortou o cabelo!

– Pois é.

(…)

Já não podia segurar-me dentro das calças. Bianca estava linda. Os cabelos curtos e negros destacavam-lhe os olhos verdes. Usava uma saia curtinha,  meias vermelhas.  Penso que se fosse possível, e assim ela quisesse, casaria-me com ela naquela mesma noite.

Fora mesmo uma noite incrível. Eu, ela, a lua. Nada mais importava, o universo inteiro parecia pequeno diante de tamanha felicidade. Daria qualquer coisa, faria qualquer coisa para voltar atrás e viver de novo quele pequeno momento. Quem dera fosse possível, assim seria minha vontade feita se não fosse para frente o rumo da vida.

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7 thoughts on “Casa comigo, moça de meias vermelhas

    • Carlos é uma das personagens mais complexas que já criei. Ele tem um dualismo dentro de si, tão grande que nunca sei qual será seu próximo passo. Estou deixando-o crescer e seguir seu próprio caminho. (coisa mais esquizofrênica). Enfim, espero que o final agrade, mas é uma história muito rica, então, o final não está tão perto quanto deveria. Beijos!

  1. O dualismo do Carlos é autentico e fácil pra qualquer homem se identificar:

    “…Já não podia segurar-me dentro das calças…”

    “…Penso que se fosse possível, e assim ela quisesse, casaria-me com ela naquela mesma noite…”

    Dilema antigo, confusão antiga.

    Bão!

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