Eu no espelho


Hoje vi um garoto no metrô. Em um vagão qualquer do metrô. Chorando  em um vagão qualquer do metrô. Ele parecia tão vazio.
Devia ter uns 15, 16 (…) Lembrei-me das minhas também crises de choro em veículos de transportes públicos.

Motivos eu não sei se realmente tinha, não sei, não me lembro, mas na verdade, tanto   faz. Tudo daquela época parece-me tão obscuro. Parece-me hoje que eu não existia no mundo, eu apenas coexistia como uma cópia de mim mesma. De qualquer forma, minhas lembranças desses momentos são um tanto quanto embaçadas.

Lembro-me apenas de uma angústia infinita. Em partes porque eu sempre me senti avulsa no mundo. (Só fui ter um namorado aos 19 , mesmo assim ele morava a 800 km de distância, e amigos, daqueles que se leva para toda a vida – aos 21). A outra metade seria porque o mundo me ignorava por eu ser avulsa e uma coisa que aprendi é que o mundo rejeita tudo o que é diferente.

Na verdade eu sempre estranhei as pessoas, isso por causa de uma mania que tenho de abstrair toda e qualquer situação na qual me encontro.

Ser humano é bicho estranho, muito estranho. Talvez o ser mais bizarro do mundo animal. Talvez o mais esquisito de todos os seres existentes na galaxia, ou quem sabe, no universo inteiro.

Ser humano é foda! No mal sentido da palavra. Tem consciência mas não usa pra nada. Passa a vida inteira indo e vindo, passa, passeia, viaja, convive, suporta, mas não se dá ao trabalho de conhecer a si mesmo.

É tanta coisa a fazer, tanto pra conhecer, tanto pra produzir, pra progredir, pra caminhar. São tantos compromissos que, as vezes, falta a própria pessoa que está ali (só que não).

Quando tinha oito anos eu acreditava que essa ideia de “ser humano” era um mito, uma enganação, uma apropriação, uma maneira mentirosa de nos posicionar  grandes perante o mundo. Eu pensava que não éramos nada além de robôs com consciência, nada melhor do que o oco, duro e frio, metal. Até hoje penso se estava certa ou errada. (Risos).

Passei boa parte da vida assim, correndo atrás de mim mesma. Tentando me encontrar, me entender, me decifrar. Tentando descobrir meu lugar nesse mundo. E acredito que depois de todo esse tempo de busca eu consegui, em partes, o que queria.

Hoje eu não choro mais em veículos de transporte público. Hoje,  eu sei quem eu sou. 

Anúncios

2 thoughts on “Eu no espelho

  1. Muito bom, adoro seu jeito melancólico e ao mesmo tempo crítico de olhar pra si mesma. “Conhece-te a ti mesmo”, esse é o mais valioso e raro conhecimento do mundo!

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s