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Sai do meu colo, você vai morrer

As últimas lembranças que tenho daquele dia são dos olhos vermelhos de Katarina esbugalhados para fora, enquanto ela caía em meu colo e eu, desesperadamente, tentava ligar o carro. Não consegui, o sangue dela está em minhas mãos.

Conheci Katarina em uma manhã de sol. Ela sorriu pra mim, num sorriso tão meigo que não consigo deixar de lembrar toda vez que fecho meus olhos. Tinha eu 16 anos e ela, 15, numa doçura melada, que me constrangia, que me fazia derreter e fazer qualquer coisa por ela.

Nina, como era chamada pelas amigas, era uma mistura de menina acanhada e mulherão. Era Uma mistura tão doida que me deixava confuso ao ponto de não ter conseguido conversar verdadeiramente com ela uma única vez.

Nos encontrávamos aos sábados depois do meu futebol. Que saudades meu Deus, dela sentada na grama, com um cigarro nas mãos, aquele sorriso entre os lábios, estendia o back pra mim e falava. ” Meu bem, sua vez…”

Um dia as apostas aumentaram, Nina estava mudada. Eu ia buscá-la no trabalho todos os dias, e aquilo me doía. A papelaria sempre cheia de adolescentes malditos. Ela naquelas roupas sensuais. Aquela situação estava insustentável. Mas, mesmo com tuto aquilo, eu ainda a amava. Não me importava o que ela fazia, eu a amava demais, o suficiente para suportar qualquer coisa por ela.

Um dia Kat, como eu a chamava, ligou séria, “Grégor, preciso de você, estou no campo”. Fui desembestado zigzagueando aquele morro infinito. A ladeira do campinho nunca foi tão grande quanto naquele dia. Eu sabia, tinha sido a última vez que eu ouvia aquela voz.

Vi Kat deitada na grama, achei que estava morta. Deitei ao lado dela, encostei meu ouvido em seu peito, parecia que seu coração ia explodir. Coloquei ela no carro, Nina me olhando com aqueles olhos esbugalhados, eu gritava com ela enquanto tentava dar a partida. Tudo ficou escuro e minha visão se apagou num negro sem fim.

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A caixa de Pandora (Parte II)

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Pandora trazia dentro de si uma angústia incontrolável e remoia,  dia após dia, aquele antagonismo que assombrava seu ser.

– Como poderia ser tão perfeito e, concomitantemente, trazer dentro de si um nome como aquele?

Sobretudo, era Pandora o antagonismo em forma humana. Carregava em sua essência a dualidade, a dicotomia – ela sentia a  coexistência do bem e do mal dentro de sua alma, brigando por seu coração.

Era tão linda, tinha a pele alva, levemente rosada nas bochechas e livre de cravos – contrariando o súbito ímpeto dos hormônios, próprios de sua idade. Seu sorriso perfeitamente branco emoldurado por sua boca carnuda muito bem moldada pela natureza.  Seu nariz era como um adorno em seu rosto, pequeno e arrebitado. Os olhos eram cor-de-me, tinham um formato levemente puxados, os cílios eram longos e as sobrancelhas davam vida àquele olhar macio e profundo. Seus cabelos eram longos, muito escuros e brilhantes, seu pai a chamava “Vento no Cabelo”. Pandora era o charme compilado. Tinha em si um carisma irrefutável e impossível de se resistir.