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O nome em um pedaço de papel

É a vida que se faz ou somos nós que fazemos dela o que melhor nos convém? É como aquele homem que decidiu caminhar equilibrando no arco do viaduto. Ele poderia cair e se estrupiar todo, mas ele decidiu que era a coisa certa a se fazer. E se escolheu que aceitasse o que havia de vir. Eu lá em baixo, berrei desesperado “Senhor, não corra esse risco”. O homem me olhou com desdém, deu um gemido tedioso e disse  “Porque eu iria descer se esse caminho me faz feliz? Sabe rapaz, algum dia você irá entender que o equilibrista não é um louco e sim um perito”.

Respirei fundo e continuei meu caminho com aquelas palavras ecoando em minha cabeça. Aquilo não fazia nenhum sentido, mas depois eu descobri que fazia sentido sim, descobri também que conhecia aquele homem e aquele homem era eu.

Veja você, outro dia estava eu na casa de Bianca. Estávamos “dando uma geral” no apartamento dela e então eu vi um nome escrito em um pedaço de papel, olhei para aquilo, meu cérebro começou a funcionar, conectei alguns assuntos da semana e então perguntei “Bibi, quem é Paula? Você nem tem amigas”. O rosto de Bianca avervelhou, ela franziu a testa como se estivesse muito, muito brava “Carlos, você está apaixonado por mim? Me diga que não. Por favor, me diga que não.  Carlos eu sou uma prostituta, uma PROSTITUTA, você sabe que não pode gostar de mim, você sabe. Por favor, não tente me controlar, você não é nada meu”. Eu não respondi, não conseguia falar nada depois daquele chilique todo, não conseguia entender aquilo. Apenas fui embora deixando minhas coisas para trás.

(…)

♫ As I danced with the dead. My free spirit was laughing and howling down at ♫

“Alô”.
“Carlos, sou eu. Você esqueceu sua polchete no meu apartamento”.
“Puts, quando você não tiver cliente me fala que vou aí buscar”.
“Como assim, quando eu não tiver cliente? Você sabe que eu não costumo atender ninguém segunda-feira, é o dia da faxina”.
“Acho melhor não aparecer por aí hoje, você está muito alterada”.
“Você não entende, né?”
“Não mesmo, você surtou tão de repente”.
“Olha, das suas amigas eu tenho certeza que sou a mais incomum, então, por favor, não me peça para fazer nada que tenha nexo. A minha vida não tem”.
“Tenho que assimilar essa história. O nome no pedaço de papel e você ficou tão brava, parece até que está apaixonada”.
“Mas eu estou”.
“Vou desligar, depois conversamos sobre isso”.

Desliguei o telefone sem esperar a resposta, estava absurdado, como Bianca poderia estar apaixonada por uma mulher?

Leia mais sobre essa história aqui e aqui

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A vida ao avesso

Pode parecer fácil deixar tudo para trás, mas nunca é. Ir embora sem olhar para trás, Deus, como é difícil. Aliás, isso  se houver algum Deus lá em cima, nem ele saberá explicar como é doloroso ir embora assim de repente.

E assim era Bianca: aquele ser misterioso, sem raízes, sem história, sem memória. Um dia ela me contou. A família era do interior, uma cidadezinha de Minas Gerais onde havia apenas uma rua, uma igreja e um buteco (que de dia também servia de armazém). O lugarejo havia sido abandonado pelo homem e renegado por Deus. A “cidade” quase não recebia visitantes, não tinha calçada, asfalto ou postes de iluminação.

O último estrangeiro que passou pelo lugar foi o pai de Bianca, o moço era forte, bonito e viajava por longos dias em cima de sua bicicleta. Mas o homem veio e se foi da mesma maneira, sumindo na poeira da estrada de chão que a muito não recebia um beijo da chuva.  A jovem Angélica, grávida e sem nenhum amparo, teve sua chance quando a barriga ia fazer seis meses. A menina bolou um plano, colocou tudo que tinha em uma pequena mala e fugiu numa madrugada apenas com uma lanterna e uma garrafa d’ água. Embrenhou em meio à escuridão. Sentiu medo, sentiu frio, mas, ao amanhecer chegou à auto estrada. A moça se encontrou e foi a dedo até uma cidade próxima. Lugar onde se estabeleceu e pariu seu bebê, uma menina linda que teve o mesmo nome de uma das enfermeiras do hospital, Maria Alice.
Maria Alice era uma criança muito, muito branca, tão branca que ninguém acreditava que  era dali. As fofoqueiras tricotavam e muito se dizia a respeito da história daquela criança sem pai.  Fugiu de casa aos treze anos, partiu para a capital depois que sua mãe descobriu seu maior segredo. Mais tarde, teve que mudar de nome para não deixar rastros. Bianca trocou  sua história por um pingo de paz.

Ela não me contou nada ao certo, existem vários buracos na história dela. É um quebra-cabeças que ainda estou montando e, ontem, me veio mais uma peça. Eu estava indo de algum lugar para lugar nenhum. Veja, os lugares não são importes, pois, quando vi aquela cena perdi todo o norte, toda a direção e toda a razão. A deusa do sexo, aquela que ganhava rios de dinheiro dando prazer aos magnatas da cidade, estava ali, entre o motel e a rua, beijando uma outra garota atrás da grade.

Se você quer saber algo mais sobre Bianca ou sobre o narrador, leia o conto a baixo